segunda-feira, dezembro 26, 2016

George Michael (1963 — 2016)


George Michael iniciou sua trajetória musical em 1981, formando o duo Wham! na companhia de Andrew Ridgeley, seu colega de escola. Rapidamente, a dupla se revelou uma usina de compactos de sucesso, como “Everything She Wants”, “Last Christmas”, “I'm Your Man” e, claro, a infecciosa “Wake Me Up Before You Go-Go”. Em 1984, lançou um single solo, a balada “Careless Whispers”, cujo sax inconfundível logo se tornou uma de canções mais emblemáticas.

Dois anos depois, decidiu embarcar em carreira solo, naquela que foi definida pela dupla como “a separação mais amigável da história do pop”. E “quebrou a banca” logo em seu álbum de estreia: com hits como “Father Figure”, “I Want Your Sex”, “One More Try”, “Kissing a Fool” e a faixa-título, Faith [1987] vendeu 25 milhões de cópias em todo o planeta e o colocou no mesmo patamar de mega astros como Madonna, Prince e Michael Jackson.

Evidentemente, a imagem de sex symbol — um misto de James Dean e Elvis Presley — ajudou bastante na empreitada. Contudo, Michael, ciente de sua capacidade — além de cantar, compor e ser um ótimo performer, tocava vários instrumentos e era um produtor de mão cheia —, tinha outros planos.

Em 1991, lançou o seu segundo álbum. Já no título, a mensagem era clara: Listen Without Prejudice (“Ouça sem preconceito”). Nas poucas entrevistas que concedeu no período, frisou que era “um compositor” e que, daquele momento em diante, a música “ficaria em primeiro plano”. A capa [no detalhe] não trazia nenhuma foto ou indicação do artista — apenas uma imagem em preto-e-branco de uma multidão de banhistas. Para completar, Michael se recusou a aparecer nos vídeos de divulgação.

O álbum emplacou dois hits: “Freedom '90” (cujo clipe mostra a jaqueta de couro de Faith entrando em combustão, simbolizando a ruptura com o passado) e “Heal The Pain”, balada acústica a la Paul McCartney (em 2005, ele regravaria a canção com a participação do ex-beatle). Entretanto, apesar de boas faixas como a bossa nova “Cowboys And Angels”, “Waiting For That Day”, “Praying For Time” (que George considerava a sua melhor letra) e “Something To Save”, o trabalho não repetiu, nem de longe, o desempenho de seu antecessor. Resultado: o cantor acusou a Sony de “escravizá-lo” e “não divulgar o disco com deveria”. E acionou judicialmente a companhia para se livrar do contrato. 

No decorrer do processo, Michael ficou fora do mercado fonográfico, lançando apenas o single Don't Let The Sun Go Down On Me (magnífico dueto com Elton John) e o EP ao vivo Five Live (que continha a sua emocionante versão de “Somebody To Love”, gravada em 1992 no Tributo a Freddie Mercury), de 1993. Acabou perdendo a ação, sendo “condenado” a lançar uma coletânea — Ladies & Gentlemen, que chegou às prateleiras somente em 1998, com duas faixas inéditas e dois covers (uma versão estupenda de “As”, de Stevie Wonder, e “I Can't Make You Love Me”, de Joni Mitchell), gravados exclusivamente para o projeto. 

Em 1996, assinou com a gravadora Virgin e editou o seu primeiro álbum de inéditas em meia década. O ótimo Older emplacou hits como “Fast Love”, a irresistível “Spinning The Wheel” e a balada “Jesus To a Child”, dedicada ao seu namorado brasileiro, o estilista Anselmo Feleppa — que conheceu logo após o memorável show no Rock In Rio II —, morto em decorrência do HIV. Mas nada que se comparasse aos seus áureos tempos. Naquele mesmo ano, gravou um bom MTV Unplugged que, embora tenha sido exibido pela emissora, jamais foi lançado oficialmente — provavelmente pelo uso de sequenciadores em um espetáculo que deveria ser... acústico.

Os problemas começam para valer em 1998, quando o artista foi preso por ato obsceno em um banheiro público de Los Angeles. Ele debochou da situação no vídeo de “Outside”, no qual aparece vestido de... policial. O episódio forçou-o a assumir a sua homossexualidade. No ano seguinte, lançou o classudo Songs From The Last Century. Produzido pelo renomado Phil Spector, trazia releituras de Frank Sinatra (“My Baby Just Cares For Me”), Nina Simone (“Wild Is The Wind”), Roberta Flack (“The First Time Ever I Saw Your Face”) e The Police (uma inesperada versão jazzy de “Roxanne”), entre outros.

A partir de então, foram períodos de depressão, internações em clínicas de reabilitação (confessou que fumava cerca de 25 cigarros de maconha por dia, além de consumir álcool, cocaína e crack), acidentes de trânsito e novos escândalos sexuais. George Michael, decididamente, passou a ser citado com mais frequência nos tabloides sensacionalistas ingleses do que nas publicações musicais.  

Editou, em 2004, aquele que viria a ser o seu último disco de inéditas. Patience apresentava um pop sofisticado e gerou o seu derradeiro hit, a ensolarada “Amazing”. Para variar, mais uma polêmica: ao criticar a invasão ao Iraque no irônico vídeo de “Shoot The Dog”, passou a sofrer boicote da imprensa americana de direita. Comemorou os 25 anos de carreira com a caprichada coletânea Twenty Five [2006] e saiu em turnê pela Europa — registrada em Live In London [2009], seu primeiro DVD.

Já em 2014, lançou o seu último trabalho, Symphonica. Gravado ao vivo durante a turnê homônima de 2011/2012 — que foi interrompida durante a passagem pela Suiça, quando uma severa pneumonia quase o matou , chegou às lojas quando o supracitado produtor Phil Spector já havia falecido. No repertório, covers de Terence Trent D'Arby (“Let Her Down Easy”) e do já mencionado Elton John (“Idol”), além de composições próprias como “A Different Corner”, o primeiro single que gravou após o fim do Wham!.

Junto com a notícia de sua morte prematura, aos 53 anos, chega a informação de que, durante anos, George Michael doou, em segredo, milhões de libras a instituições de caridade, cedendo, inclusive, direitos autorais de suas canções. Embora tenha deixado um punhado de sucessos — a despeito de uma discografia bastante reduzida —, fica a triste sensação de que o artista que esbanjava talento se esmerou em “roubar o próprio show”. E que, apesar dos cem milhões (!) de discos vendidos e duas estatuetas do Grammy, poderia ter ido muito, muito mais longe.



Não deixa de ser uma infeliz coincidência que o autor de “Last Christmas” [1984] tenha falecido justamente... no dia de Natal.

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Rolling Stones: aprecie sem moderação


CD
Blue & Lonesome (Universal Music)
2016


Grupo revisita suas raízes em um visceral álbum de blues

Em seu álbum de estreia, lançado no longínquo ano de 1964, os Rolling Stones manifestaram o seu apreço pelo blues com a releitura de “I Just Want To Make Love To You”, de Willie Dixon. Decorridos 52 anos, o grupo decide prestar um tributo às suas raízes com Blue & Lonesome, composto apenas de covers de blues.

No primeiro semestre desse ano, os Stones estavam trabalhando em um álbum de inéditas — o primeiro desde A Bigger Bang [2005] — no estúdio de Mark Knopfler, ex-líder do Dire Straits, o British Grove Studios, em Londres. E, nos intervalos, “para conhecer melhor o estúdio”, tocavam os blues que os acompanhavam desde a juventude. Daí surgiu a ideia de um disco, que acabou sendo gravado em apenas três dias, com os músicos tocando ao vivo. 

A (excelente) harmônica de Mick Jagger se faz presente em nada menos do que dez das doze faixas da bolacha. As guitarras de Keith Richards e Ron Wood se complementam à perfeição. O buddy Eric Clapton — outro entusiasta do blues —, trabalhava no estúdio ao lado e participou de duas faixas, “I Can't Quit You Baby” e “Everybody Knows About My Good Thing”. 

Blue & Lonesome não tem a menor pretensão em soar “moderno”. Contudo, é visceral e espontâneo como raramente se ouve na música popular atual. Diga-se de passagem, é o melhor álbum dos Stones desde Voodoo Lounge [1994] — o que também não significa que eles não tenham lançado boas faixas isoladamente desde então. 

No repertório, se permitem a analogia, bambas como Little Walter (“I Gotta Go”, “Hate to See You Go’’ e a primeira faixa de trabalho, “Just Your Fool”), Howlin’ Wolf (“Commit a Crime”) e o supracitado Willie Dixon (“Just Like I Treat You” e a já mencionada “I Can’t Quit You Baby”), entre outros.

Há tempos, a banda estava devendo um CD desse calibre — e que, não por acaso, se encaminha para o topo das paradas americana e inglesa — a si própria e ao seu público. Aprecie sem moderação.



Veja o vídeo oficial de “Ride 'Em On Down”, com participação de Kristen “Crepúsculo” Stewart:

terça-feira, dezembro 20, 2016

‘Chegaste’: o dueto de Roberto Carlos e Jennifer Lopez

No detalhe, Jennifer, Roberto e Kany García, autora da versão original da canção


Single digital
Chegaste (Sony Music)
2016


O singleChegaste” é a concretização da tão comentada colaboração entre Roberto Carlos e Jennifer Lopez, já disponível nas plataformas digitais. Versão de “Llegaste”, de autoria da cantora e compositora Kany García — vencedora do Grammy Latino por três vezes —, teve a letra adaptada para português pelo próprio Roberto.

Gravada em Los Angeles, com produção de Julio Reyes Copello — conhecido por trabalhos com Alejandro Sanz, Nelly Furtado e Ricky Martin entre outros —, “Chegaste” é uma balada suave cuja letra fala de um amor que surge inesperadamente (“Quem diria que você diria sem dizer que vinha?”). Não se trata de um clássico, mas tem a sua beleza. Foi a primeira vez em que a americana J Lo — que possui ascendência porto-riquenha — cantou no nosso idioma. E até que não se saiu mal. 

A versão em espanhol do dueto integrará o álbum que Jennifer está finalizando — o primeiro hispânico em uma década. Por outro lado, não se sabe se a gravação em português fará parte do novo trabalho de inéditas de Roberto — após um hiato de 14 anos (!) —, prometido para abril de 2017.

O vídeo oficial, gravado na residência da cantora, em Los Angeles, será lançado no especial anual de RC, no dia 23 de dezembro.



Ouça “Chegaste:

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Borbulhas de Amor’, de Fagner e Ferreira Gullar


Além da vasta obra literária, o poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo e tradutor Ferreira Gullar — falecido ontem, aos 86 anos — teve alguns de seus poemas, como “Traduzir-se” e “Me Leva (Cantiga pra Não Morrer)”, musicados por Fagner

E, juntos, verteram para português “Burbujas de Amor”, canção do dominicano Juan Luis Guerra. Fagner conta que, quando decidiu fazer a versão, concluiu que precisava de alguém com uma assinatura de peso — já que costumava levar “muita pancada da crítica”. Por já serem parceiros, o cantor escolheu Gullar, que, a princípio, mostrou-se reticente à ideia — justamente por tratar-se de uma versão. Mas acabou ficando satisfeito com o resultado final.

Borbulhas de Amor”, do álbum Pedras que Cantam [1991], tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do músico cearense.



Veja o vídeo de “Borbulhas de Amor”, gravado ao vivo em 2002



...e também a (impagável) explicação dada por Ferreira Gullar, durante a Flip de 2010, sobre o “peixe” da letra da canção:


domingo, dezembro 04, 2016

Trilha sonora de ‘Lazarus’ apresenta as três últimas inéditas de David Bowie



CD
Lazarus Cast Album (Sony Music)
2016


Exibido na Broadway este ano, o musical Lazarus foi, ao lado do CD Blackstar, um dos últimos trabalhos de David Bowie, falecido no dia 10 de janeiro. E a trilha sonora  do espetáculo, formado inteiramente por canções do Camaleão interpretadas pelo elenco, chega agora às prateleiras, via Sony Music, em edição nacional.

Os arranjos de algumas faixas, como “Valentine's Day”, “Where Are You Now?”, “Love Is Lost” e o blues “Dirty Boys” — curiosamente, todas do penúltimo álbum de Bowie, o ótimo The Next Day [2013] — são idênticos aos originais. O que resulta em uma grande perda de tempo — afinal, se é para ouvir covers, melhor recorrer à (vasta) discografia do artista.

Os melhores resultados são alcançados justamente nas releituras que “desconstruíram” as gravações originais. É o caso de “This Is Not America”, quase irreconhecível na voz de Sophia Anne Caruso, e da abordagem minimalista de “Heroes” na voz de Michael C. Hall, protagonista do extinto seriado Dexter. Mas nada se compara à (acachapante) versão eletrônica de Charlie Pollack de “The Man Who Sold The World”, também regravada com sucesso pelo Nirvana em 1994. Bowie — que, felizmente, teve tempo de assistir a peça — deve ter adorado.

Entretanto, o grande trunfo da trilha é o CD bônus que traz as três últimas faixas inéditas de David Bowie, gravadas na companhia do Donny McCaslin Trio durante as sessões do já mencionado Blackstar. “When I Met You” é uma tocante canção pop com melodia tipicamente Bowie, em que os vocais “dobrados” passam a impressão de que ele “dialoga” consigo próprio. Já a pesada e raivosa “Killing a Little Time” parece falar sobre a doença que o vitimou: “Estou caindo, cara / estou sufocando, cara / Estou desaparecendo, cara”.

A lenta “No Plan” é a melhor das três. Capcioso, Bowie brinca com a palavra “plano” — que tanto pode se referir a “planejamento” quanto a outro plano… existencial: “Todas as coisas que compõem a minha vida / meu humor / minhas crenças / meus desejos / eu, sozinho / nada a se arrepender / este não é lugar nenhum / mas aqui estou eu”.

Entre obviedades e bons momentos, Lazarus se impõe, principalmente, pelo valor documental: trata-se do último estertor criativo de um artista incomparável. E que deixou muita saudade.



Ouça a (acachapante) versão eletrônica de “The Man Who Sold The World” de Charlie Pollack...




...e também “No Plan”, uma das três inéditas deixadas por Bowie:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘I Can't Give Everything Away’, de David Bowie


“...durante as sessões do já mencionado Blackstar...”




Além dos dois (impactantes) vídeos gravados pelo próprio David Bowie, Blackstar ganhou um terceiro audiovisual — o primeiro póstumo. 

Utilizando recursos de computação gráfica, Jonathan Barnbrook — também responsável pelo design do álbum — criou um caprichado lyric video para a comovente “I Can't Give Everything Away”, faixa que encerra (com chave de ouro) o último CD de Bowie.

Barnbook explicou suas escolhas:

— Começamos [o vídeo] com o mundo preto-e-branco de ★. Contudo, no refrão final, mudamos para um colorido brilhante, como uma espécie de “celebração” ao David. Uma forma de dizer que, apesar da adversidade que enfrentamos, das dificuldades que surgiram com a morte do David, os seres humanos são naturalmente positivos. Eles olham para frente e conseguem tirar algo positivo do passado e usar como algo para ajudá-los no presente. Somos uma espécie naturalmente otimista e sempre celebramos o bem que nos é ofertado.



Veja o vídeo de “I Can't Give Everything Away:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Photograph’, de Ringo Starr e George Harrison


Além de companheiros de banda e grandes amigos, ex-beatles Ringo Starr e George Harrison também chegaram a compor juntos. “Photograph”, provavelmente o maior sucesso da carreira solo de Ringo, é parceria sua com George.

Lançada em Ringo, de 1973 [no detalhe, a capa], é a única faixa oficialmente creditada à dupla — embora eles tenham trabalhado juntos em outras canções. Na gravação, além do próprio Harrison, participaram figurões como o saxofonista Bobby Keys (que excursionava com os Rolling Stones) e o pianista Nicky Hopkins, entre outros.



Veja o vídeo de “Photograph”, gravado durante o (magnífico) Concert for George, de 2002, tributo realizado no Royal Albert Hall, em Londres, no exato dia em que Harrison completou um ano de falecimento:

terça-feira, novembro 29, 2016

Da série ‘Causos’: George Harrison e Ringo Starr


No dia em que George Harrison​ completa exatos 15 anos de falecimento, vamos relembrar uma passagem comovente, que ilustra a sua amizade com Ringo Starr​.

Em 2001, o ex-baterista dos Beatles decidiu fazer uma visita ao seu companheiro de banda — que já se encontrava em estágio terminal — em um hospital da Suíça. Em um determinado momento, Starr pediu desculpas e disse que precisava se retirar: iria para Boston acompanhar a filha, Lee, que se submeteria a uma cirurgia para retirar um tumor do cérebro — da qual, felizmente, se recuperou. 

Totalmente devastado pela doença, Harrison mal conseguia se mexer no leito de hospital. Mas, mesmo assim, perguntou a Ringo:

— Quer que eu vá com você?

E estava falando sério.

Starr revelou esse episódio em uma entrevista concedida em abril de 2015 à revista Rolling Stone. E não conseguiu conter as lágrimas.


terça-feira, novembro 22, 2016

Lulu Santos lança em single parceria sua com Nelson Motta


CD
Tempo em Movimento (Sony Music)
2016


Composta a quatro mãos por Lulu Santos e o produtor e compositor Nelson Motta, “Tempo em Movimento” foi gravada inicialmente por Luíza Possi – na companhia do próprio Lulu – no álbum Sobre o Amor e o Tempo, de 2013. Exatos três anos depois, recebe (bela) versão do guitarrista carioca, seguindo o padrão “bolero havaiano” de clássicos da dupla como “De Repente Califórnia”, “Sereia” e, claro, “Como uma Onda”. 

Registrada em estúdio em 2014, “Tempo em Movimento” será a única inédita na voz de Lulu a integrar a coletânea Tesouros da Juventude, que reunirá 14 parcerias suas com Nelson, como “Tudo Azul”, “Certas Coisas”, “Areias Escaldantes” e a faixa-título, entre outras.

Tesouros da Juventude será lançada ainda este ano.



Ouça “Tempo em Movimento”:

domingo, novembro 20, 2016

Sting: de volta ao básico



CD
57th & 9th (Universal Music)
2016


Sting nunca escondeu que o fator surpresa sempre foi o principal motor de seu trabalho. Em 2007, depois de gravar o CD de alaúde mais vendido da história (o medieval Songs From The Labyrinth), deixou o mundo estupefato ao reativar o Police para uma bem-sucedida turnê mundial – algo que passou duas décadas repetindo que “jamais” faria. Terminada a excursão, passou a ostentar uma barba típica de um profeta e debruçou-se nas canções invernais do melancólico If On A Winter's Night [2009]. Em outra reviravolta, decidiu reler faixas de sua carreira solo e de seu antigo grupo acompanhado por uma grande orquestra em Symphonicities [2010]. E, por fim, compôs a trilha do seu primeiro musical exibido na Broadway, The Last Ship [2013]. Portanto, o que surpreenderia o seu público? Um retorno ao formato básico de baixo-bateria-guitarra, sem dúvida. Bingo: essa é justamente a proposta do inglês no recém-lançado 57th & 9th – esquina nova-iorquina que ele atravessava diariamente no caminho para o estúdio de gravação. Detalhe: o seu último disco “de carreira”, o bom Sacred Love, foi lançado em 2003 (!).

É bem verdade que a irresistível “I Can't Stop Thinking About You”, que abre os trabalhos, e a pesada “Petrol Head” não soariam deslocadas no repertório do Police. Aliás, perguntado se o disco novo teria o som característico do trio, Sting respondeu à moda Newcastle (região do norte da Inglaterra onde nasceu, na qual as pessoas são reconhecidamente… rudes): “I am the fucking Police”. Contudo, é mais apropriado definir 57th & 9th como um álbum de pop rock – como a agradável “One Fine Day”, que clama para que, “um dia desses”, líderes mundiais se mobilizem acerca do aquecimento global. 

Um dos pontos altos é a amarga “50,000”, que mostra o impacto que as mortes de David Bowie, Prince, Glenn Frey e do amigo Alan Rickman (o “Snape” da série Harry Potter) exerceram sobre Sting, que completou 65 anos no mês passado. “Outro obituário no jornal de hoje”, lamenta. Em um determinado trecho, ele parece se dirigir aos seus ex-colegas de banda: “Como lembro bem dos estádios em que tocamos / e as luzes que varriam o mar de 50.000 almas que enfrentaríamos”. E, ciente da “imortalidade” que os seus companheiros de profissão costumam atingir, conclui: “Astros do rock nunca morrem / apenas desvanecem”.

Por outro lado, o Sting reflexivo dos últimos 30 anos se faz presente nas acústicas “Heading South On The Great North Road”, balada com ares celtas que poderia tranquilamente estar em The Last Ship, e “The Empty Chair”, que encerra os trabalhos com um pedido: não ser esquecido depois de partir (“Guarde o meu lugar e a cadeira vazia / e, de alguma forma, estarei lá”). 

Bom letrista, ele se mostra afiado na arabesca “Inshallah”, que aborda a questão dos refugiados. O título é uma expressão bastante utilizada no mundo islâmico, que, em uma tradução livre, equivale ao nosso “se Deus quiser”. Na edição Deluxe do álbum, há uma outra versão dessa faixa, gravada em Berlim na companhia de músicos egressos da Síria. No entanto, a melhor letra provavelmente é a tocante “If You Can't Love Me” (“Não quero nada pela metade (…) / se você não consegue me amar assim / então você tem que me deixar”).

Embora um tanto incompreendido – e subestimado – desde o início de sua trajetória solo, Sting já foi indicado 38 vezes para o Grammy, tendo vencido em 16 ocasiões. Está indiscutivelmente inserido no panteão dos grandes compositores pop do século passado, onde já se encontram Lennon & McCartney, Jagger & Richards, Elton John & Bernie Taupin, o supracitado David Bowie e Bob Dylan, entre outros. E, em 57th & 9th, a mensagem é clara: a canção popular ainda é assunto dele, sim. 



Ouça “50,000...



...e “Petrol Head: