terça-feira, novembro 29, 2016

Da série ‘Causos’: George Harrison e Ringo Starr


No dia em que George Harrison​ completa exatos 15 anos de falecimento, vamos relembrar uma passagem comovente, que ilustra a sua amizade com Ringo Starr​.

Em 2001, o ex-baterista dos Beatles decidiu fazer uma visita ao seu companheiro de banda — que já se encontrava em estágio terminal — em um hospital da Suíça. Em um determinado momento, Starr pediu desculpas e disse que precisava se retirar: iria para Boston acompanhar a filha, Lee, que se submeteria a uma cirurgia para retirar um tumor do cérebro — da qual, felizmente, se recuperou. 

Totalmente devastado pela doença, Harrison mal conseguia se mexer no leito de hospital. Mas, mesmo assim, perguntou a Ringo:

— Quer que eu vá com você?

E estava falando sério.

Starr revelou esse episódio em uma entrevista concedida em abril de 2015 à revista Rolling Stone. E não conseguiu conter as lágrimas.


terça-feira, novembro 22, 2016

Lulu Santos lança em single parceria sua com Nelson Motta


CD
Tempo em Movimento (Sony Music)
2016


Composta a quatro mãos por Lulu Santos e o produtor e compositor Nelson Motta, “Tempo em Movimento” foi gravada inicialmente por Luíza Possi – na companhia do próprio Lulu – no álbum Sobre o Amor e o Tempo, de 2013. Exatos três anos depois, recebe (bela) versão do guitarrista carioca, seguindo o padrão “bolero havaiano” de clássicos da dupla como “De Repente Califórnia”, “Sereia” e, claro, “Como uma Onda”. 

Registrada em estúdio em 2014, “Tempo em Movimento” será a única inédita na voz de Lulu a integrar a coletânea Tesouros da Juventude, que reunirá 14 parcerias suas com Nelson, como “Tudo Azul”, “Certas Coisas”, “Areias Escaldantes” e a faixa-título, entre outras.

Tesouros da Juventude será lançada ainda este ano.



Ouça “Tempo em Movimento”:

domingo, novembro 20, 2016

Sting: de volta ao básico



CD
57th & 9th (Universal Music)
2016


Sting nunca escondeu que o fator surpresa sempre foi o principal motor de seu trabalho. Em 2007, depois de gravar o CD de alaúde mais vendido da história (o medieval Songs From The Labyrinth), deixou o mundo estupefato ao reativar o Police para uma bem-sucedida turnê mundial – algo que passou duas décadas repetindo que “jamais” faria. Terminada a excursão, passou a ostentar uma barba típica de um profeta e debruçou-se nas canções invernais do melancólico If On A Winter's Night [2009]. Em outra reviravolta, decidiu reler faixas de sua carreira solo e de seu antigo grupo acompanhado por uma grande orquestra em Symphonicities [2010]. E, por fim, compôs a trilha do seu primeiro musical exibido na Broadway, The Last Ship [2013]. Portanto, o que surpreenderia o seu público? Um retorno ao formato básico de baixo-bateria-guitarra, sem dúvida. Bingo: essa é justamente a proposta do inglês no recém-lançado 57th & 9th – esquina nova-iorquina que ele atravessava diariamente no caminho para o estúdio de gravação. Detalhe: o seu último disco “de carreira”, o bom Sacred Love, foi lançado em 2003 (!).

É bem verdade que a irresistível “I Can't Stop Thinking About You”, que abre os trabalhos, e a pesada “Petrol Head” não soariam deslocadas no repertório do Police. Aliás, perguntado se o disco novo teria o som característico do trio, Sting respondeu à moda Newcastle (região do norte da Inglaterra onde nasceu, na qual as pessoas são reconhecidamente… rudes): “I am the fucking Police”. Contudo, é mais apropriado definir 57th & 9th como um álbum de pop rock – como a agradável “One Fine Day”, que clama para que, “um dia desses”, líderes mundiais se mobilizem acerca do aquecimento global. 

Um dos pontos altos é a amarga “50,000”, que mostra o impacto que as mortes de David Bowie, Prince, Glenn Frey e do amigo Alan Rickman (o “Snape” da série Harry Potter) exerceram sobre Sting, que completou 65 anos no mês passado. “Outro obituário no jornal de hoje”, lamenta. Em um determinado trecho, ele parece se dirigir aos seus ex-colegas de banda: “Como lembro bem dos estádios em que tocamos / e as luzes que varriam o mar de 50.000 almas que enfrentaríamos”. E, ciente da “imortalidade” que os seus companheiros de profissão costumam atingir, conclui: “Astros do rock nunca morrem / apenas desvanecem”.

Por outro lado, o Sting reflexivo dos últimos 30 anos se faz presente nas acústicas “Heading South On The Great North Road”, balada com ares celtas que poderia tranquilamente estar em The Last Ship, e “The Empty Chair”, que encerra os trabalhos com um pedido: não ser esquecido depois de partir (“Guarde o meu lugar e a cadeira vazia / e, de alguma forma, estarei lá”). 

Bom letrista, ele se mostra afiado na arabesca “Inshallah”, que aborda a questão dos refugiados. O título é uma expressão bastante utilizada no mundo islâmico, que, em uma tradução livre, equivale ao nosso “se Deus quiser”. Na edição Deluxe do álbum, há uma outra versão dessa faixa, gravada em Berlim na companhia de músicos egressos da Síria. No entanto, a melhor letra provavelmente é a tocante “If You Can't Love Me” (“Não quero nada pela metade (…) / se você não consegue me amar assim / então você tem que me deixar”).

Embora um tanto incompreendido – e subestimado – desde o início de sua trajetória solo, Sting já foi indicado 38 vezes para o Grammy, tendo vencido em 16 ocasiões. Está indiscutivelmente inserido no panteão dos grandes compositores pop do século passado, onde já se encontram Lennon & McCartney, Jagger & Richards, Elton John & Bernie Taupin, o supracitado David Bowie e Bob Dylan, entre outros. E, em 57th & 9th, a mensagem é clara: a canção popular ainda é assunto dele, sim. 



Ouça “50,000...



...e “Petrol Head:


Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘I Can't Stop Thinking About You’, de Sting


Ao entrar em estúdio para gravar 57th & 9th, Sting não possuía uma única canção inédita – todas foram compostas durante o processo. E “I Can't Stop Thinking About You”, que acabou se tornando a primeira faixa de trabalho, foi gerada de forma curiosa.

Em um determinado momento, o músico se dirigiu à varanda de sua cobertura em Manhattan, em meio a uma nevasca, para que as condições “adversas” lhe trouxessem inspiração. Deu certo: assim surgiu uma metacanção que fala justamente sobre a angústia do artista diante da “tela em branco” (“Página em branco / um campo vazio de neve / meu quarto está 25 graus abaixo de zero”). Não se trata, portanto, de uma canção romântica – como muitos podem ter imaginado.

Infecciosa desde os primeiros acordes e dona de um refrão poderoso, “I Can't Stop Thinking About You” é faixa mais despudoradamente pop que Sting lança desde “If I Ever Lose My Faith In You”, de 1993 (!). Um clássico instantâneo que, a partir de agora, não poderá ficar de fora dos shows do ex-Police – e tampouco de suas futuras coletâneas.



Veja o vídeo oficial da canção:



Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Your Love’, do The Outfield


A ótima “Your Love”, o maior sucesso comercial dos ingleses do The Outfield, é a música que o Police “esqueceu” de compor e gravar – tamanha é a influência do trio, desde o arranjo até o agudo registro vocal.

Faixa de Play Deep [no detalhe, a capa – que não tinha como ser mais feia], de 1985, álbum de estreia da banda, a canção tem uma particularidade: só começou a ser executada (maciçamente) nas rádios brasileiras cinco anos após o lançamento.

Em 2014, com a morte de John Spinks, guitarrista e principal compositor, o grupo encerrou as suas atividades. De qualquer forma, adoraria ter visto a cara de Sting, Andy Summers e Stewert quando ouviram “Your Love” pela primeira vez…


Veja o vídeo oficial de “Your Love:

Da série ‘Fotos’: Bob Dylan

Parabéns (atrasados) ao bardo pelo Nobel de Literatura desse ano

sábado, novembro 12, 2016

Leonard Cohen (1934 — 2016)


Apesar da idade avançada (82 anos), recebi com espanto — e tristeza — a notícia do falecimento de Leonard Cohen. Sobretudo porque ele lançou um CD novo, You Want It Darker há apenas três semanas. A causa da morte não foi divulgada. 

Poeta que se tornou cantor e compositor somente depois dos 30 anos de idade, o canadense de origem judaica intensificou a sua atividade profissional nos últimos 15 anos de vida. De 2012 para cá, chegou a lançar discos ano-sim-ano-sim. O “surto criativo”, contudo, tem uma explicação prática: a descoberta de que uma ex-agente havia abalado as suas finanças. 

Dono de uma obra de raro lirismo, Cohen pode ser considerado um dos três maiores letristas da música pop de todos os tempos — os outros dois são Lou Reed e, claro, Bob Dylan.  E, com sua voz grave e seu estilo declamado de cantar, acabou se tornando um intérprete peculiar para as próprias canções.

Em agosto desse ano, enviou um e-mail para a amiga (e ex-namorada) Marianne Ihlen — inspiradora de “So Long Marianne —, que veio a falecer no dia seguinte, vítima de leucemia. Na carta, lida no funeral da norueguesa, Cohen foi fiel ao seu melhor estilo: Bem, Marianne, chegou aquela altura em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a se desfazer e acho que vou lhe seguir muito em breve. Quero que saiba que estou tão próximo que se estender a mão talvez consiga tocar na minha. (...) Quero apenas lhe desejar boa viagem. Adeus, velha amiga. Encontramo-nos no caminho”.

Em 2016, a música popular perdeu David Bowie, Glenn Frey, Prince e, agora, Leonard Cohen. Um ano para lá de esquisito.



Cohen será sempre lembrado pela sua obra-prima “Hallelujah” [1984], que, curiosamente, tornou mais conhecida nos últimos anos como “a música do filme do Shrek”. A versão definitiva, no entanto, é a do também falecido Jeff Buckley, que integra o único álbum que lançou em vida, o estupendo Grace [1994]:


terça-feira, outubro 11, 2016

20 anos sem Renato Russo


Há exatos 20 anos, no dia 11 de outubro de 1996, morria Renato Russo. Lembro exatamente onde eu estava e como recebi a notícia – através de um telefonema. “Tom, sabe quem morreu?” Pensei por alguns segundos e respondi com outra pergunta, com receio do que iria ouvir: “Renato Russo?” Após uma breve pausa, veio a lacônica confirmação: “Sim”. Recordo-me de ficar paralisado com o telefone colado ao ouvido, sem conseguir pronunciar uma única palavra. Seis anos após o falecimento de Cazuza, novamente tive a triste sensação de que, naquele momento, uma parte importante da minha adolescência havia ido embora com ele. Para sempre.

Cerca de duas semanas antes, eu havia comprado aquele que veio a ser o último álbum da Legião Urbana lançado em vida por Renato, A Tempestade Ou O Livro Dos Dias. Já na primeira audição, observei a melancolia de letras como “A Via Láctea” (“Hoje a tristeza não é passageira / hoje fiquei com febre a tarde inteira”), “Música Ambiente” (“E, quando eu for embora, / não, não chore por mim”) e “O Livro dos Dias” (“Meu coração não quer deixar meu corpo descansar”). A voz fragilizada e a opção por colocar fotos de arquivo no encarte do CD eram claros indícios de que algo não ia nada bem com ele. Mas, no fundo, eu não queria acreditar.

É difícil descrever a importância que a obra de Renato Russo teve nos meus chamados anos de formação. A exemplo do que ocorrera com milhares de pessoas da minha faixa etária, ele simplesmente dizia tudo o que eu precisava ouvir naquele momento. Foi contundente ao criticar as mazelas do país (“Perfeição” e “Que País É Esse?”), ao falar do conflito de gerações (“Geração Coca-Cola”), abordou questões existenciais (“Índios” e “Tempo Perdido”) e, acreditem, conseguiu fazer o Brasil inteiro decorar uma letra de dez minutos de duração (afinal, todo mundo sabia cantar “Faroeste Caboclo” de cor). Mas também soube ser bem-humorado (“Eduardo e Mônica”) e falar de amor em todas as suas vertentes (“Monte Castelo” e “Pais e Filhos”).

Nos últimos 20 anos, não surgiu um artista brasileiro que se equiparasse com o líder da Legião Urbana. Com todo o respeito: nenhum chegou sequer perto disso. Pela qualidade de sua poesia e pela forma como conduziu a sua carreira – ignorando as fórmulas de marketing da indústria musical –, ouso dizer que jamais haverá alguém como ele. Renato Russo foi, é e sempre será... único. 


terça-feira, setembro 27, 2016

Da série ‘Na Estante’: ‘David Bowie Está Aqui’


Livro
David Bowie Está Aqui (Cosac & Naif)
Vários Autores
2013


Dentre todas as biografias de músicos de rock já editadas, David Bowie Está Aqui é, sem dúvida, uma das que mais impressionam pelo acabamento. Convenhamos: Bowie merece tal deferência.

Enorme (31,2 x 24,2), trata-se de um misto de enciclopédia (pela pesquisa minuciosa) e livro de arte (por ser fartamente ilustrado com fotos de várias fases da vida do cantor, seus trajes e até de manuscritos de suas letras). A explicação: foi a primeira obra que teve acesso irrestrito ao The David Bowie Archive, o acervo pessoal do cantor.

A publicação data de 2013, por ocasião da exposição itinerante homônima de Bowie, exibida inicialmente no Victoria and Albert Museum, em Londres, de março a agosto daquele ano, e que foi reapresentada no Museu da Imagem do Som, em São Paulo, no ano seguinte. Os curadores do museu londrino dissertam sobre a influência do autor de “Fashion” – que se estendeu, inclusive, ao mundo da moda (!).

A má notícia é que a editora Cosac & Naif encerrou as suas atividades em novembro de 2015 – o que, em breve, transformará “David Bowie Está Aqui” em um item de colecionador. Algumas lojas virtuais, contudo, ainda possuem o item em estoque. Portanto, fica a dica: não deixe para amanhã para adquirir esse documento essencial sobre a vida e a trajetória singular do Camaleão.

sexta-feira, setembro 23, 2016

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Mortal Loucura (Oração)’, com Maria Bethania


O soneto “Oração” foi um raro momento de lirismo do poeta baiano Gregório de Matos (1623 – 1696), que, pelo teor satírico de sua obra, ficou conhecido como “Boca do Inferno”. Em 2005, rebatizando-o de “Mortal Loucura”, José Miguel Wisnik o musicou para a trilha do balé Onqotô, do Grupo Corpo, composta e executada na companhia de Caetano Veloso.

No primeiro semestre deste ano, Maria Bethania regravou a faixa – diga-se de passagem, com um arranjo magnífico e uma interpretação ímpar – para a novela Velho Chico, além de disponibilizá-la em single digital. É o tema do personagem Santo, interpretado por Domingos Montagner, cujo falecimento, na semana passada, comoveu todo o Brasil.

À luz dos tristes acontecimentos, é intrigante observar que se trata de uma canção cuja temática é justamente… a efemeridade da vida (“Já sei que a flor da formosura, usura / será, no fim dessa jornada, nada”). O que nos leva a crer que “coincidência” é apenas uma palavra criada para nomenclaturar algo que, a bem da verdade, não sabemos explicar ao certo.