sexta-feira, dezembro 07, 2007

'Synchronicity'

A faixa-título do quinto e último álbum de estúdio do The Police (editado em 1983) foi batizada dessa forma em referência ao conceito desenvolvido pelo suíço Carl Jung [foto] - considerado um dos maiores psiquiatras do mundo - para definir “acontecimentos que se relacionam não por relação causal [como em uma simples coincidência], mas por relação de significado”. A sincronicidade é também chamada por Jung de “coincidência significativa”.

Muitos acreditam que a sincronicidade é “reveladora” e necessita de uma compreensão. E essa compreensão poderia surgir espontaneamente, sem nenhum raciocínio lógico. A esse tipo de entendimento instantâneo, Jung dava o nome de “insight”.

'Ghost In The Machine'

Ghost in the Machine (1981), quarto disco do The Police, recebeu esse título numa alusão à frase contida no livro O Conceito de Mente [The Concept of Mind, 1949], do filósofo inglês Gilbert Ryle, que faz uma crítica à chamada teoria do Dualismo Cartesiano (ou Dualidade Cartesiana), desenvolvida pelo francês René Descartes.

No livro, Ryle afirma que Descartes cometeu um “engano conceitual ao enxergar um fantasma (a mente) numa máquina (o corpo)”. E a isso chamou, ironicamente, de “o dogma do fantasma na máquina”.

'Zenyatta Mondatta'

O título do terceiro álbum do The Police significa “topo do mundo” em sânscrito - língua clássica da Índia antiga que influenciou praticamente todos os idiomas ocidentais.

Desenvolvido a partir do ano de 1500 a.C., é eventualmente descrito como um “equivalente asiático” do Latim, dada a sua importância na literatura religiosa e histórica da Índia [no detalhe, uma das maravilhas do Mundo Moderno: o Taj Mahal, situado na cidade de Agra].

'Every Breath You Take'

Provavelmente o maior sucesso comercial do grupo, a belíssima “Every Breath You Take” foi composta por Sting em cinco minutos, inspirada em “Stand By Me”, famosa na voz de John Lennon [foto], e “Diana”, grande sucesso de Paul Anka.

A letra tem um significado ambíguo: o que parece ser uma simples canção romântica é, na verdade, o relato de um sujeito obsessivo (“A cada passo seu / estarei observando você”), que não se conforma de ter sido abandonado pelo seu objeto de desejo: “Oh, será que você não vê / que pertence a mim?”.

Muitos casais ao redor do mundo interpretaram os versos da canção com uma declaração de amor. Com sua franqueza cortante, Sting respondeu:

- Se o relacionamento deles é assim, azar o deles!






Da série ‘São Bonitas as Canções’: 'Wrapped Around Your Finger', do Police

           

Scylla e Charybdes, citados em “Wrapped Around You Finger” são dois personagens da mitologia grega. Segundo o mito, marinheiros que precisavam passar em uma determinada área na costa da Sicília [foto] deveriam enfrentar dois monstros que moravam em cavernas, uma de frente para a outra: de um lado, Scylla, uma criatura de seis cabeças, cujos membros inferiores eram nada menos que serpentes e cães ferozes; e no outro, Charybdis, um terrível redemoinho. De modo que, quando os navegantes conseguiam escapar de um... davam de cara com o outro.

Estar “entre Scylla e Charybdes” é também um modo... humerudito de dizer que se está entre “a cruz e a espada” ou entre “o fogo e a frigideira”.

Já Mephistopheles, também mencionado na letra, era como o demônio era chamado, segundo a lenda alemã de Fausto.



Veja o vídeo de “Wrapped Around Your Finger”, originalmente lançada em Synchronicity [1983], quinto e último álbum do Police

'Tea In The Sahara'

Penúltima de faixa de Synchronicity, “Tea In The Sahara” foi inspirada no romance The Sheltering Sky, de 1949 (esse termo, inclusive, é mencionado na letra da canção). De autoria do escritor e compositor americano Paul Bowles, o livro foi publicado no Brasil com o título de O Céu que nos Protege, tendo sido adaptado também para o cinema (Um Chá no Deserto, com direção de Bernardo Bertolucci, 1990).

As “sisters” a que Sting se refere na canção - “my sisters and I/ have one wish before we die” [“minhas irmãs e eu/ temos um desejo antes de morrermos”] - provavelmente são personagens do livro: Outka, Mimouna e Aïcha, as três “meninas da montanha”.

'Don't Stand So Close To Me'

A faixa que abre o terceiro disco do Police, Zenyatta Mondatta, de 1980, foi inspirada no romance Lolita [foto], escrito pelo russo Vladimir Nabokov em 1955, considerado um dos mais polêmicos livros da história. Devido ao inegável teor pedófilo da narrativa (ainda que esse tipo de perversão não tivesse sido “batizado” na época), vários editores de Londres - cidade onde morava o escritor - recusaram a publicação do livro.

Lolita conta a estória de um professor que se apaixona por uma menina e que acaba se colocando em uma situação delicada ao colocar o seu desejo em prática - exatamente como na letra de “Don't Stand So Close To Me”. Desde então, qualquer menina que exerça precocemente atração sexual passou a ser chamada de “ninfeta” ou... “lolita”.

Tendo lançado recentemente o livro Lyrics, onde comenta 200 letras de suas canções, Sting (que, para quem não sabe, foi professor antes de se tornar músico) se apressou em avisar:

- Essa música não é autobiográfica!

'Walking On The Moon'

A gênese dessa canção (também do Reggatta de Blanc) é bastante simples. Sting amava loucamente a sua primeira namorada - Deborah Anderson, falecida no final da década de 1970 - e, a cada vez que a levava embora (“walking back from your house/ walking on the moon”[“voltando da sua casa/ andando na lua”]), sentia saudades dela por antecipação.

- Estar apaixonado é perder a gravidade - explicou o cantor em sua autobiografia, Fora do Tom [Broken Music].

'Message In a Bottle'

Um dos maiores clássicos do Police, “Message in a Bottle” (do segundo álbum da banda, o ótimo Reggatta de Blanc, de 1979) fala de solidão, usando como metáfora a estória de um náufrago perdido em uma ilha deserta, lançando ao mar uma garrafa com uma mensagem de “S.O.S. para o mundo”. Muito provavelmente teve como inspiração A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe, um dos mais antigos romances ingleses [no detalhe, a foto da capa da primeira publicação, que data de 1719].

O final da canção é simplesmente genial. Um ano após ter enviado a tal mensagem na garrafa, o personagem leva uma baita susto ao perceber que a solidão, em maior ou menor grau, era comum a muito mais gente do que ele supunha:

Saí para caminhar essa manhã
Não acreditei no que vi:
Cem bilhões de garrafas boiando na orla.
Parece que não estou sozinho em me sentir solitário -
Cem bilhões de náufragos
Procurando um lar
.”

'Roxanne'

Primeiro sucesso do Police, “Roxanne” (faixa de Oulandos d'Amour, 1978, álbum de estréia do grupo) foi composta por Sting em um hotel fuleiro de Paris, onde a banda fez algumas apresentações logo no início da carreira. Em uma antiga entrevista, o autor explicou:

- Sempre adorei a peça Cyrano de Bergerac [foto] e sempre amei o nome Roxanne. Na primeira vez em que estive em Paris, não faltavam prostitutas nas imediações do hotel. Eu nunca tinha visto isso antes, porque na Inglaterra não temos prostituição nas ruas. E isso me inspirou a escrever uma canção sobre uma prostituta, perguntando como eu me sentiria se uma dessas garotas fosse a minha namorada.

Na peça de Edmond Rostand, Cyrano é um talentoso poeta e exímio espadachim. Contudo, é um indivíduo de nariz enorme, o que causa um grande contraste com suas habilidades intelectuais e físicas. Já Roxanne é sua prima - e por quem ele é apaixonado. Roxanne, no entanto, se encanta pelo cavaleiro Christian de Neuvillete e, ironicamente, Cyrano (a pedido da própria prima) passa a ser uma espécie de protetor dele.

Pelo fato de Christian ser... ahn... digamos, pouco familiarizado com as palavras, as cartas de amor para Roxanne são escritas, em segredo... por Cyrano. Com isso, a dama fica fascinada pelo homem que escreve aqueles maravilhosos textos, sem suspeitar que o autor é ninguém menos que... o seu primo.

Os 'Polícia' vêm aí


Às vésperas da apresentação única - e que tem tudo para se tornar histórica - do The Police [foto] no Brasil, pensei em contar, em uma série de posts, as origens de algumas das canções do trio. Nem todos prestam atenção nesses detalhes, mas as músicas do grupo - compostas em sua maioria por Sting, um indivíduo reconhecidamente culto - têm como inspiração várias formas de arte (como a literatura, o teatro e o cinema), provando que, sim, existe vida inteligente no rock'n'roll.

Se bem que, volta e meia, aparece algum Chorão para demolir essa tese. Mas deixemos isso para lá...

Paulinho da Viola: Encontros O Globo


O última edição do Encontros O Globo - Especial Música do ano de 2007 contou com a presença de Paulinho da Viola. Durante duas horas, o mestre do samba respondeu às perguntas dos mediadores (os jornalistas João Máximo, Antônio Carlos Miguel e Zuenir Ventura) e do público que lotou o auditório do jornal, assim como dos internautas que enviaram suas dúvidas através do O Globo On Line.

A tão comentada elegância de Paulinho é absolutamente verdadeira. Figura extremamente simpática, contou longas histórias e, acompanhado de seu violão, cantou alguns de seus sucessos, como “Cenário” e “Eu Canto Samba”. Obviamente, a Portela era um assunto que não poderia faltar. E o compositor relembrou o momento exato em que, menino, se apaixonou pela escola:

- Foi no Carnaval na Avenida Rio Branco - ainda não havia, naquela época, desfile na Marquês de Sapucaí, muito menos Sambódromo. Eu gostava muito de andar sozinho.

O autor de “Sinal Fechado” falou sobre a gênese dessa canção:

- Aquele momento [durante a ditadura militar] era de silêncio. As pessoas viviam desconfiadas, com medo até de conversar. E eu fiz essa música por causa de um conhecido meu. Um dia, eu o encontrei na rua e ele disse que precisava muito falar comigo. Outras vezes, nos encontramos e nada de ele falar. E até hoje, tantos anos depois, ele ainda não conseguiu me dizer o que queria - disse, Paulinho, para risos da platéia.

E, embora de modo lacônico, o cantor não fugiu quando questionado se considerava superado o lamentável episódio de 1995 (quando Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia receberam da Prefeitura do Rio um cachê maior do que o dele para cantar no reveillon na praia de Copacabana):

- Sim, considero - disse, sorrindo.

Perguntado sobre a passagem do tempo, Paulinho respondeu com profundidade:

- Aquele meu verso 'quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado' é verdadeiro. Às vezes, começo a lembrar dos fatos de toda a minha vida. E sempre tenho a impressão de tudo passou depressa demais, mesmo sabendo que, na verdade, não foi assim. De modo que só posso concluir que não vivo no passado. Mas o passado vive em mim - afirmou, arrancando aplausos entusiasmados do público.


Veja algumas fotos que tirei do Encontro:



Os mediadores [da esq. para a dir.]: os jornalistas João Máximo, Antônio Carlos Miguel e Zuenir Ventura

domingo, dezembro 02, 2007

Frank Miller

A primeira vez em que ouvi falar de Frank Miller [ver dois posts abaixo] foi quando a fantástica Saga de Elektra, do Demolidor - criada pelo estilo único do argumentista e desenhista americano - chegou às bancas brasileiras, através da Editora Abril. O ano era 1986.

A partir de então, acompanhei vários trabalhos - sempre excepcionais - de Miller: o clássico Cavaleiro das Trevas (que retrata Batman, aos 50 anos de idade, revogando a sua “aposentadoria” e retomando o combate ao crime); Batman: Ano Um (que reconta a origem do Homem-Morcego, com desenhos de David Mazzuchelli) e muitas outras. Daí o meu espanto em ver que, atualmente, o principal referencial de Frank Miller é a graphic novel Sin City [foto].

Pois é. Isso até que eu assistisse a adaptação para o cinema (de 2005), co-dirigida pelo próprio Miller, em parceria com Robert Rodriguez e tendo como diretor convidado ninguém menos que Quentin Tarantino. Com grande elenco (Bruce Willis, Jessica Alba, Rutger Hauer e um atuação irrepreensível de - quem diria - Mickey “9 e 1/2 Semanas de Amor” Rourke), Sin City tem uma bela fotografia noir e consegue equilibrar doses generosas de violência com pitadas do mais puro humor (negro).

Após ver Sin City é que entendi por que Miller, hoje em dia, é tão reconhecido por esse trabalho. Gostei tanto da película que, aí sim, fui procurar a revista. Portanto, recomendo o filme (sei que nem todos se interessarão pela versão em quadrinhos) - mas não para pessoas fenfíveis.

Depois não vá dizer que não avisei, OK?