quinta-feira, dezembro 30, 2010

Da série São Bonitas as Canções: ‘New Year's Day’, do U2


Faixa de War (1983), o terceiro álbum do U2 [acima], a pungente “New Year's Day” é, sem dúvida, um dos maiores clássicos da banda irlandesa. E arrebata plateias até os dias de hoje.

A princípio, a intenção de Bono era compor uma canção de amor. Contudo, a letra foi adquirindo uma conotação política e tornou-se uma homenagem ao movimento Solidariedade, liderado pelo sindicalista Lech Wałęsa [no detalhe]. Em 1990, Wałęsa tornou-se o primeiro presidente eleito da Polônia, após a derrocada do comunismo. Antes disso, em 1983, ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Curiosidade: foi justamente de um verso de “New Year's Day” que o U2 batizou o seu primeiro disco ao vivo, Under A Blood Red Sky (“Sob um Céu Vermelho-sangue”), de 1984.


***


E esta canção é a minha mensagem de Ano Novo para todas as pessoas que visitam este espaço e, mesmo silenciosamente, demonstram interesse pelo que escrevo.

Agradeço, sincera e humildemente, pela atenção e pelo respeito de cada um de vocês. Um 2011 de muita saúde e paz para todos.



quinta-feira, dezembro 23, 2010

Da série São Bonitas as Canções: ‘Happy Xmas’, de John Lennon


Lançada originalmente em um single no ano de 1971, a comovente “Happy Xmas”, de John Lennon [no detalhe, com sua... er, fiel escudeira, Yoko Ono] foi composta, a princípio, como um protesto contra Guerra do Vietnã. Não por acaso, o subtítulo da canção é “War Is Over” (“A Guerra Acabou”).

E mesmo o fim do conflito não fez com a que a faixa perdesse a relevância. Muito pelo contrário: é considerada uma das mais belas canções canções natalinas – senão a mais bela – que o pop já gerou. Um verdadeiro libelo pela igualdade entre os homens.

Ainda que, se vocês observarem bem, não fale em Deus em momento algum...

Vale destacar também a participação das crianças do Harlem Community Choir, que fizeram toda a diferença na canção – embora a letra, a despeito de sua simplicidade, seja brilhante.

Que o espírito do Natal esteja no coração de cada um de vocês.



“Happy Xmas (War Is Over)”
John Lennon


(Happy Xmas, Kyoko
Happy Xmas, Julian)

So this is Christmas
And what have you done?
Another year over
And a new one just begun.

And so this is Christmas
I hope you'll have fun.
The near and the dear one
The old and the young.

A very Merry Christmas
And a happy New Year.
Let's hope it's a good one
Without any fear.

And, so this is Christmas
For weak and for strong
For rich and the poor ones
The world is so wrong.
And so happy Christmas
For black and for white
For yellow and red ones
Let's stop all the fight.

A very Merry Christmas
And a happy New Year.
Let's hope it's a good one
Without any fear.

And so this is Christmas
And what have we done?
Another year over
A new one just begun.
And, so happy Christmas
We hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young.

A very Merry Christmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear.

War is over, if you want it
War is over, now.

Happy Christmas.



“Feliz Natal (A Guerra Acabou)”
(Tradução: Tom Neto)


(Feliz Natal, Kyoko
Feliz Natal, Julian)

Então, é Natal
E o que você fez?
Outro ano se vai,
E um novo começa.

E então é Natal
Eu espero que você se divirta.
As pessoas próximas e queridas,
Os idosos e os jovens.

Um Natal muito feliz,
E um feliz Ano Novo.
Esperemos que seja um bom ano
Sem nenhum temor.

E então é Natal
Para os fracos e para os fortes
Para os ricos e para os pobres
O mundo está tão errado.
E então, Feliz Natal
Para negros e brancos
Para asiáticos e indígenas
Vamos parar todos os conflitos.

Um Natal muito feliz
E um feliz Ano Novo
Esperemos que seja um bom ano
Sem nenhum temor.

E então é Natal
E o que nós fizemos?
Outro ano se vai
E um novo começa.
E então Feliz Natal
Nós esperamos que você se divirta
As pessoas próximas e queridas
Os idosos e os jovens

Um Natal muito feliz
E um feliz Ano Novo
Esperemos que seja um bom ano
Sem nenhum temor.

A guerra acabou
Se você quiser.
A guerra acabou,
Agora.

Feliz Natal.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Três décadas sem John Lennon


Exatos 30 anos após o precoce desaparecimento de John Lennon [no detalhe], aos 40 anos de idade, todos os pormenores da vida do ex-Beatle já foram amplamente destrinchados. Sua infância sofrida. Seu temperamento difícil. Sua (nada discreta) relação com a esposa, Yoko Ono. Seu ativismo político. Seu brutal assassinato. E, principalmente, seu inestimável legado artístico.

Sendo assim, só nos resta, mais uma vez... homenagear a sua memória.



Quem souber dizer a exata explicação,
me diz como pode acontecer?
Um simples canalha mata um rei...
Em menos de um segundo
...”


(“Canção do Novo Mundo”, Beto Guedes e Ronaldo Bastos)




Nobody Told Me’, do álbum póstumo Milk and Honey, de 1984.





Instant Karma!’, seu terceiro single solo, editado em 1970. Foi composta e gravada no mesmo dia. E chegou às lojas apenas dez dias (!) depois...





Look at Me’, de primeiro álbum lançado por John após o fim dos Beatles, Plastic Ono Band, de 1970.





Jealous Guy’, de seu segundo álbum pós-Fab Four, Imagine, de 1971.





Oh My Love’, também de Imagine. Como podem perceber, a faixa tem a participação de George Harrison, na guitarra.



Da série São Bonitas as Canções: ‘Canção do Novo Mundo’, de Beto Guedes

A faixa citada no post acima é a tocante “Canção do Novo Mundo”, letra de Ronaldo Bastos, musicada por Beto Guedes [no detalhe], e gravada por este.

Originalmente lançada no álbum Contos de Lua Vaga, de 1981 – e também registrada por Milton Nascimento em seu Ao Vivo, de 1983 –, “Canção do Novo Mundo” claramente homenageia John Lennon. E lamenta o seu falecimento: “Oh, minha estrela amiga / por que você não fez a bala parar?


***


Só para constar: Beto Guedes é um dos artistas brasileiros que mais respeito e admiro. Suas canções, na minha modéstia opinião, são a mais nítida “fotografia sonora” das Minas Gerais que tanto amo – mesmo sendo carioca de pai e mãe.


sábado, dezembro 04, 2010

Lulu Santos: Acústico II – A Missão


CD/DVD
Lulu Acústico II (Universal Music)
2010



Cantor rebobina mais sucessos e ‘lados B’ em novo especial da MTV

Em 2000, Lulu Santos quebrou um paradigma com o seu Acústico MTV: eram tantos hits que, pela primeira vez na série, um artista mereceu – além do habitual DVD – um CD duplo com o registro de sua apresentação. E o compositor carioca permaneceu como o detentor solitário da façanha até 2002, quando Jorge Ben Jor recebeu a mesma deferência.

Passados exatos dez anos, Lulu volta à carga com Lulu Acústico MTV II, que chega às prateleiras em CD – desta vez, simples – e DVD, realizado de forma independente, com distribuição via Universal Music.

Impossível não ceder à tentação de relacionar o Acústico atual com o anterior – dadas as suas diferenças e semelhanças. Para começo de conversa, o cantor dispensou o tradicional “banquinho”, permanecendo de pé durante toda a apresentação. E, sem repetir uma música sequer do especial da década passada, desfiou sucessos como “Um Pro Outro”, “Minha Vida” e a bela “Papo Cabeça”, e bons “lados B” como “Pra Você Parar”, “Brumário”, “Dinossauros do Rock” e a sentida “Auto Estima”, que fecha os trabalhos.

Além do talento como hitmaker, Lulu Santos, em comparação aos seus congêneres/contemporâneos, tem um trunfo: a enorme facilidade em reinventar a si próprio e ao seu cancioneiro, a todo momento. Isso fica claro em “Tudo Azul”, faixa-título de seu bem-sucedido álbum de 1984, que ressurge mais brasileira do que nunca. O mesmo vale para “Vale de Lágrimas”, de 2005 – uma de suas melhores canções recentes – cujo novo arranjo, com ares de... tango (!), realçou a dramaticidade da letra.

A outrora dançante “Baby de Babylon” lançada no ano passado, recebeu um roupagem bossa nova, com eventuais compassos de... reggae (!). Ficou interessante. Já a ótima “Já É!”, de 2003, mesmo desplugada, não perdeu o seu pulso disco.


No DVD, Lulu homenageia os seus três ‘santos’

A cantora Marina De La Riva – descrita pelo cantor como “indescritível” – é convidada especial da (excelente) versão hispânica de “Adivinha o Quê?” e, apesar da voz pequena, empresta puro charme à gravação. Simplesmente hilário o momento em que ela se dirige a Lulu, no idioma de Cervantes, dizendo “tremendo vacilón”. Detalhe: a flauta supriu perfeitamente a ausência do solo de guitarra.

O baixista Jorge Aílton, autor de “Atropelada” – gravada pelo anfitrião em Singular, o antecessor de Lulu Acústico MTV II – faz o vocal principal da sua “O Óbvio”. Com seu jeitão de hino, a mediana “E Tudo Mais”, que abre o espetáculo, é a única inédita.

Disponíveis apenas no DVD, as três faixas bônus são, na definição do próprio Lulu, “velas” acesas para os seus “santos”: Gilberto Gil, homenageado com “Ele Falava Nisso Todo Dia”; o já mencionado Jorge Ben Jor, com “Tuareg”; e Caetano Veloso, com “Odara”, que contou novamente com a participação de Marina De La Riva e também de Andrea Negreiros, vocalista da banda de Lulu. As duas primeiras já haviam sido gravadas pelo autor de “Certas Coisas” – em Letra & Música, de 2005, e Assim Caminha a Humanidade, de 1994, respectivamente. Apenas “Odara” é inédita na voz do cantor carioca.

Mesmo sem superar o primeiro Acústico – que trazia o supra-sumo de sua obra –, Lulu Acústico MTV II é um bom registro daquele que é um dos principais nomes da música brasileira. Considerando o autor que sempre foi, Lulu Santos, se tivesse nascido no Reino Unido, certamente estaria à altura de um Elton John...



Confira os vídeos de ‘Adivinha o Quê?’...




...de ‘Baby de Babylon’...


...e de ‘Já É!’:

‘Lulu Acústico MTV II’: índice remissivo

Sobre “Auto Estima”, escrevi aqui. Sobre “Vale de Lágrimas”, aqui. Sobre “Baby de Babylon”, aqui. Sobre “Atropelada” [post reescrito], aqui.

A resenha de Singular, o mais recente álbum de inéditas de Lulu Santos, pode ser lida aqui. E o vídeo de “Tudo Azul”, extraído do DVD Lulu Acústico MTV II, pode ser visto aqui.


terça-feira, novembro 16, 2010

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Spirits In The Material World’, do Police


Faixa de Ghost In The Machine (1981), o quarto — e penúltimo — álbum do Police [no detalhe], o ótimo reggae de brancoSpirits In The Material World” foi composta em referência ao cenário político britânico da década de 1980 — Sting, o autor, é inglês.

Contudo, a letra da canção aplica-se a qualquer contexto. Inclusive ao Brasil do ano 2010...

Com sua falaciosa “retórica do fracasso”, o suposto “líder” — entre aspas, naturalmente — tenha “aprisionar” e “subjugar” os submissos — e também os ignorantes. A metáfora dos “espíritos no mundo material”, aliás, refere-se justamente a isso: a manipulação da população.

Ou seja, os “espíritos” conseguem ver e ouvir tudo que se passa no “mundo material”. Entretanto, sendo intangíveis, não detém o menor poder de interferência...

O verso final passa uma mensagem... anarquista, digamos assim: “Se é algo que não podemos comprar / deve haver outro jeito...”. Nesse sentido, lembra, curiosamente, “Shoplifters Of The World Unite”, lançada pelos Smiths cinco anos depois.


Spirits In The Material World
(Sting)

There is no political solution
To our troubled evolution
Have no faith in constitution
There is no bloody revolution.

We are spirits in the material world.

Our so-called leaders speak
With words they try to jail you.
They subjugate the meek
But it's the rhetoric of failure.

We are spirits in the material world.

Where does the answer lie?
Living from day to day
If it's something we can't buy
There must be another way.

We are spirits in the material world.


Espíritos no Mundo Material
(Tradução: Tom Neto)

Não há solução política
Para a nossa problemática evolução.
Não há fé na Constituição.
Não há nenhuma revolução sangrenta.

Somos espíritos no mundo material.

Nossos supostos “líderes” falam –
Com palavras, eles tentam lhe aprisionar.
Eles subjugam os submissos
Mas é a retórica do fracasso.

Somos espíritos no mundo material.

Onde repousa a resposta,
Vivendo dia após dia?
Se é algo que não podemos comprar,
Deve haver um outro jeito.

Somos espíritos no mundo material.



Sobre o Anarquismo

O verso final passa uma mensagem... anarquista, digamos assim: ‘Se é algo que não podemos comprar / deve haver um outro jeito...’”



Convencionou-se definir Anarquismo [no detalhe, o símbolo da ideologia] da maneira mais simplista: como “baderna”. Ledo engano.

O Anarquismo prega, na verdade, a total “ausência de governo”. Ou seja, “se hay gobierno, soy contra”. Não confundir, entretanto, com “ausência de ordem”.

É uma filosofia absolutamente utópica, eu sei. Afinal, a sociedade jamais deixará de ter algum tipo de... er, “autoridade”. O que, convenhamos, é uma amostra clara da incompetência dos seres humanos — que sempre precisam que alguém lhes diga o que fazer. Todavia, não deixa de ter... algum sentido...

Se somos todos biologicamente iguais, por que raios alguns têm “poder” sobre a esmagadora maioria? Pensem nisso.

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Shoplifters of the World Unite’, dos Smiths


Nesse sentido, curiosamente, lembra ‘Shoplifters of the World Unite’, lançada pelos Smiths cinco anos depois.


O refrão de “Shoplifters of the World Unite” conclama:

Shoplifters of the world
Unite and take over
Shoplifters of the world
Hand it over
Hand it over
Hand it over

(“Ladrões de loja do mundo,
Unam-se e dominem.
Ladrões de loja do mundo
Distribuam
Distribuam
Distribuam”)


Na ocasião, para evitar que desavisados interpretassem os versos da canção como uma apologia à ladroagem pura e simples, Morrissey, o autor da letra, explicou:

— É um “roubo” mais ou menos espiritual, cultural — no sentido de levar as coisas e usá-las em seu próprio benefício.

A faixa não está presente em nenhum dos álbuns de carreira da célebre banda de Manchester: foi editada somente em single, em 1987. Posteriormente, no entanto, foi incluída nas compilações Louder Than Bombs e The World Won't Listen.

terça-feira, novembro 02, 2010

Da série ‘Frases’: Renato Russo

“...estes são dias desleais...”

(“Metal Contra as Nuvens”, Dado Villa-Lobos – Renato Russo – Marcelo Bonfá, CD V, 1991)


Da série ‘Frases’: Renato Russo

Estou acordado e todos dormem. Todos dormem. Todos dormem

(“Monte Castelo”, Renato Russo, com trechos de “1 Coríntios 13” e do “Soneto 11”, de Luís de Camões, CD As Quatro Estações, 1989)


Da série ‘Frases’: Voltaire

O povo é gado – e o que ele precisa é de canga, aguilhada e forragem

Voltaire
(1694 — 1778), escritor, ensaísta, e filósofo iluminista francês.


domingo, outubro 31, 2010

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Tudo Azul’, de Lulu Santos

Faixa-título do (ótimo) álbum que Lulu Santos editou em 1984, “Tudo Azul” foi regravada na recém-lançada dobradinha CD/DVD Lulu Acústico MTV II [no detalhe, a capa].

Parceria do compositor e guitarrista carioca com Nelson Motta – que escreveu a letra –, a canção agora ressurge mais brasileira do que nunca.

Em breve, a resenha Lulu Acústico MTV II aqui no TomNeto.com.

Nós somos muitos. Não somos fracos.
Somos sozinhos nessa multidão.
Nós somos só um coração
Sangrando pelo sonho de viver.”



terça-feira, outubro 19, 2010

Chico Buarque: como eleitor, um ótimo compositor


Ontem, artistas e intelectuais compareceram ao Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, para manifestar apoio à candidatura da “invenção” eleitoral que atende pelo nome Dilma Rousseff. Inclusive, o sr. Chico Buarque de Hollanda [em foto de Monique Cardone, do R7, Rio de Janeiro]:

— Venho aqui reiterar meu apoio entusiasmado à campanha da Dilma. A forma de governar de Lula é diferente. Ele não fala fino com Washington, nem fala grosso com Bolívia e Paraguai. Por isso, é ouvido e respeitado no mundo todo. Nunca houve na História do país algo assim.

“A forma de governar de Lula é diferente”? Ué, mas o Lula é candidato? Ninguém me avisou. “Nunca houve na História do país algo assim”? Ih, mais um que pensa que o Brasil foi fundado em 2003...

Bem, Chico tem todo o direito se posicionar politicamente. Afinal, ao contrário de Cuba* – país pelo qual o artista nutre tamanha simpatia –, vivemos em uma democracia.

Pelo menos, por enquanto...

Todavia, é espantoso que o autor de “Apesar de Você” não se envergonhe de emprestar o seu (enorme) prestígio a uma candidata deste calibre. Sobre Dilma, não há mais nada a ser dito: sua biografia – que é de conhecimento de todos –, seus pronunciamentos – verdadeiros atentados à Gramática – e a fragilidade de suas opiniões falam por si.

Decididamente, como eleitor, Chico Buarque continua sendo um de nossos melhores compositores.



* Será que, lá em Havana, Chico conseguiria ter um campo de futebol, para bater uma bolinha com o seu Polytheama?

Chico Buarque, o ‘engajado’


Ontem, no Teatro Oi Casa Grande, Chico Buarque [foto] falou em “apoio entusiasmado” à candidatura Dilma Rousseff. O que, imediatamente, fez com que viesse à minha mente um trecho de sua biografia, o qual transcrevo:


“Certo dia, em pleno regime militar, ano 1968, toca o telefone na casa de Chico. Do outro lado, uma voz misteriosa de mulher: ‘Chico? É Mariinha’. A
voz convoca o compositor: ‘Reunião amanhã aqui em casa com o príncipe russo’. Príncipe russo? Mariinha? Chico fica intrigado. Que diabos de príncipe russo?! Aí, decifra o enigma e exclama, feliz com a própria esperteza: ‘Ah, o Wladimir! Matei a charada, Tônia!’ Do outro lado, Tônia Carrero dá-lhe uma bronca: ‘Pô, Chico, não era pra falar’.

A convocação sigilosa era para uma reunião clandestina com Wladimir Palmeira, mas Chico não levava mesmo jeito para a coisa. Distraído, frequentava reuniões políticas por um dever acima de sua vontade. Nessa época, participava ligeiramente desses encontros, e estava longe se ser o artista mais engajado. ‘Havia muitos que eram mais participantes do que eu’. Não estava alienado aos acontecimentos, mas não tinha maiores entusiasmos”.

(“Perfis do Rio: Chico Buarque”, Regina Zappa, Editora Relume-Dumará, 1999, páginas 89-90)


Resta a dúvida: será que Chico está verdadeiramente imbuído do alardeado... “entusiasmo”? Ou a sua adesão ao evento teria sido apenas mais... “um dever acima de sua vontade”?

É estranho imaginar que o perfil descrito acima é, de fato, do autor de letras de contundentes críticas sociais como “Cálice”, “Deus Lhe Pague” e “Vai Passar”, entre outras.

terça-feira, outubro 12, 2010

Da série São Bonitas as Canções: ‘Aquarela’, de Toquinho


Embora tantos anos tenham se passado, jamais esqueci de uma propaganda da Faber-Castell, cuja música-tema era a magistral “Aquarela”, de Toquinho, que se fazia ouvir pela delicada voz de uma criança.

No desenrolar do anúncio, a (irretocável) letra da canção – originalmente italiana, cuja versão foi escrita a quatro mãos com Vinícius de Moraes – era “ilustrada” através de “desenhos” feitos por mãos infantis: “Numa folha qualquer, desenho um sol amarelo...”.

Não gostaria de soar piegas, mas aquilo era de uma singeleza... devastadora.

Considero “Aquarela” uma das dez mais belas canções brasileiras. Se falarmos em temática infantil, é provavelmente a campeã, ao lado de “O Caderno” – curiosamente, também de Toquinho –, na voz de Chico Buarque.

Apesar do respeito que sempre nutri pelo grande autor e violonista Toquinho, curiosamente, não possuo em casa este fonograma. O que faz com que todas as esporádicas vezes em que ouço a canção – geralmente, no rádio, ao volante –, meus olhos fiquem, como diriam os antigos, “rasos d'água”.

Na última vez, inclusive – foi este ano –, meu filho estava comigo no carro. E, após aumentar o volume, exclamei, entusiasmado:

— Filho, olha que música bonita! Preste atenção nessa letra.

Os seus nove anos de idade não permitiriam captar toda a essência daqueles versos. Mas, para mim, foi a mais tocante de todas as audições de “Aquarela” de minha vida. Pelo simples fato de que, somente naquele momento, me dei conta de que, a exemplo de todos os meninos do planeta, meu filho, ao meu lado, também estava sendo “retratado” na canção.

Um menino caminha
E, caminhando chega num muro.
E ali, logo em frente,
A esperar pela gente
O futuro está.

Ao final, ele deu o seu veredito. Positivo, claro:

— É, a música é bonita mesmo, hein, pai?


***


Existem clichês dos quais não podemos/conseguimos fugir. Um deles é aquele que diz que “todo adulto tem uma criança dentro de si”. É verdade.

E cada vez que um adulto, seja qual for a sua idade, faz uma brincadeira, ou simplesmente dá uma risada, a criança que o habita... vê a luz do dia. Fica a dica deste vosso amigo: permitam que essa criança que mora dentro de vocês “pinte o sete” mais e mais vezes.

Um feliz Dia das Crianças. Para as pequenas. E para as grandes também.



Veja o vídeo da mencionada propaganda da Faber-Castell
:




E ouça, na íntegra, a gravação de Toquinho
:

Da série São Bonitas as Canções: ‘O Caderno’, com Chico Buarque


...ao lado de ‘O Caderno’ – curiosamente, também de Toquinho –, na voz de Chico Buarque.”


Parceria de Toquinho com Mutinho, a versão de “O Caderno” que conta com a participação de Chico Buarque foi lançada no álbum Casa de Brinquedo, de 1983 – curiosamente, o mesmo ano em que era veiculado o anúncio da Faber-Castell em que tocava “Aquarela”...


Da série São Bonitas as Canções: ‘Bola de Meia, Bola de Gude’, com 14 Bis

Ainda sobre o universo infantil: outra fantástica canção que fala sobre criança – ainda que através de metáforas – é “Bola de Meia, Bola de Gude”, primorosa letra de Fernando Brant, musicada por este gênio da raça chamado Milton Nascimento.

Sobre estes versos, não há o que mais nada o que dizer: a música simplesmente fala por si.

Ilustrando o post, a capa de O Menino Maluquinho – quem não leu este livro? – de Ziraldo.



Ouça a versão do 14 Bis para “Bola de Meia, Bola de Gude”, com participação de Samuel Rosa, do Skank. À guisa de curiosidade: o vídeo apresenta cenas do clássico
The Kid (1921), de Charles Chaplin.

terça-feira, outubro 05, 2010

Da série ‘Música Clássica não é chata’: ‘Movimento de Primavera’, de Alexandre Guerra


Para saudar a chegada da “estação das flores”: “Movimento de Primavera”, de Alexandre Guerra [http://www.alexandreguerra.com.br/]. Uma melodia estupenda, que não necessita de uma única sílaba... para tocar profundamente o coração do ouvinte.

Movimento de Primavera” integrou a trilha lounge da novela Páginas da Vida.

Da série ‘Perguntar não ofende’: você compraria um carro usado de Ciro Gomes?

Integrante da chamada “tropa de choque” de Dilma Rousseff para o segundo turno das eleições presidenciais, Ciro Gomes, como de praxe, alfinetou José Serra, de acordo com a reportagem de hoje do O Globo On Line:

— Os marqueteiros tentam atenuar, com o slogan [nota do blog: “Serra é do bem”], o que é a evidência oposta, porque todo mundo sabe que o Serra é do mal. E eu sei mais do que ninguém.

O (observem o eufemismo) desmemoriado deputado deveria se lembrar do que afirmou, em abril deste ano, segundo o jornal O Estado de São Paulo e o Blog do Noblat:

— Minha sensação agora é a de que o Serra vai ganhar esta eleição. Dilma é melhor do que o Serra como pessoa. Mas o Serra é mais preparado, mais legítimo, mais capaz. Mais capaz, inclusive, de trair o conservadorismo e enfrentar a crise que conheceremos em um ou dois anos.

Seguindo a... er, peculiar linha de raciocínio de Ciro, mais vale apoiar uma candidata com inferior capacidade administrativa, pelo simples fato de ela ser, em tese, uma pessoa... “melhor”?

Perguntar não ofende: você compraria um carro usado de Ciro Gomes? Cartas para a redação.


segunda-feira, outubro 04, 2010

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Rainy Days and Mondays’, dos Carpenters


Hoje, se vivo fosse, meu pai completaria 60 anos de idade. Em sua memória, postarei uma canção de uma dupla que ele adorava – e que demorei doze anos (!) para... conseguir ouvir novamente: The Carpenters [no detalhe].

A explicação para tamanho hiato é que – somadas às recordações familiares, claro – a música dos irmãos americanos me comove mais do que a de qualquer outro artista. Mais do que a de Roberto Carlos. Mais do que a dos Beatles.

A doce voz de Karen Carpenter (1950 – 1983) é, na minha modesta opinião, um dos mais belos sons já produzidos pelo ser humano.


***


Em julho de 2009, citei Karen Carpenter no post em que falei sobre o maestro Quincy Jones. A canção “She's Out Of My Life”, gravada por Michael Jackson em Off The Wall – álbum produzido por Jones – foi escrita por Tommy Bahler para a cantora, que havia sido sua namorada...


***


Por coincidência ou não, hoje – como diz o título da canção – foi um “dia chuvoso”. E também uma segunda-feira...

sábado, outubro 02, 2010

Eleições 2010: reflita antes de votar


O PT, sendo um dos maiores partidos deste País – e, sobretudo, sendo situação –, tinha todo o direito de lançar candidatura própria para a sucessão presidencial.

Entretanto, tinha também o dever de respeitar a boa-fé que a população – especialmente a menos esclarecida – depositou no presidente Lula. E, sendo assim, deveria ter escolhido uma candidata, sob todos os aspectos, mais apta para a importância do cargo em questão.

Do contrário, fica a triste impressão de que o partido deseja simplesmente... permanecer no poder. Para, entre outros motivos, continuar aparelhando o Estado e beneficiando os “companheiros”. Afinal, “nunca antes na História deste País” – como o presidente gosta de repetir, como um mantra – tantos cargos de confiança foram criados. “Nunca antes na História deste País” a máquina administrativa esteve tão inchada.

Detalhe: quem está dizendo isso é um cidadão que, ingenuamente, votou no PT inúmeras vezes.

Caros leitores, assistam, por obséquio, aos vídeos abaixo. E reflitam se é realmente isto que o Brasil merece. Se, pelo menos, uma única pessoa conseguir enxergar a fraude que é tão evidente... já me darei por satisfeito.

Ainda que esta afirmativa soe clichê, pensem na seriedade da decisão a ser tomada amanhã, dia 03. A Nação agradece.


Puxa, quanta “eloquência”...





Qual ser humano na face da Terra é capaz de esquecer o título (!) de um livro que acabou de ler?





Bem... Mas, pelo menos, ela tem cabos eleitorais “de peso”, sem dúvida alguma...





Para encerrar, um verdadeiro show de contradições...

quinta-feira, setembro 30, 2010

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘If You Love Somebody Set Them Free’, de Sting


A infalível “If You Love Somebody Set Them Free” foi o primeiro single e o primeiro sucesso solo de Sting. É também a faixa de abertura de The Dream Of The Blue Turtles (1985), álbum de estreia do baixista, após a ruptura do Police. Não, não foi regravada em Symphonicities – provavelmente, pelo fato de que soaria adequada dentro de um arranjo sinfônico. Mas é, sem dúvida, uma das mais interessantes canções do músico inglês.

O título foi extraído de um aforismo do escritor americano Richard Bach. Na ocasião, Sting explicou que a faixa era uma espécie de “antídoto” à “opressão” narrada nos versos do último – e maior – sucesso do Police, “Every Breathe You Take”.

No final das contas, a letra da canção reitera a frase comumente atribuída a John Lennon: “Amo a liberdade. Por isso, deixo livres as coisas que amo”, etc.

Na teoria, parece muito fácil. Na prática, convenhamos: nem tanto. Todavia, é a maneira mais sensata e... digamos, saudável de raciocinar.


Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘They Dance Alone (Cueca Solo)’, de Sting


They Dance Alone”, lançada por Sting em 1987, homenageia as mães das vítimas da ditadura do general chileno Augusto Pinochet. São as chamadas “mães dos desaparecidos”.

Em manifestações públicas, elas dançam, em sinal de protesto, o Cueca – uma dança típica daquele país – com as fotos de seus maridos, filhos e irmãos desaparecidos. Exatamente como a letra descreve. Não por acaso, o subtítulo da canção, inclusive, é “Cueca Solo”.

Coincidentemente, naquele mesmo ano, o U2 também gravou uma canção sobre o tema: “Mother of the Disappeared”, do clássico The Joshua Tree.

A letra de “They Dance Alone” chega a citar nominalmente Pinochet. E pragueja: “One day we'll dance on their graves...” Provavelmente imaginando atos desses tipo, a família do ditador preferiu cremá-lo...

A gravação, do segundo álbum solo de Sting, ...Nothing Like The Sun, conta com a participação de dois figurões: Eric Clapton e Mark “Dire Straits” Knopfler, ambos em discretos violões de nylon.

Aproveito o ensejo para reiterar o meu asco por todo e qualquer regime totalitário.



Sting - They Dance Alone (Cueca Solo)
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Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Synchronicity II’, do Police

Em dezembro de 2007, às vésperas da apresentação única do Police no Rio de Janeiro, escrevi uma série de posts falando sobre algumas faixas da banda. Tenho dito, ao longo dos anos, que as canções de Sting – que era o principal compositor do grupo – traziam referências literárias e filosóficas absolutamente incomuns à superficialidade pop.

E uma destas postagens era dedicada a “Synchronicity II”, faixa do quinto e último álbum do trio, Synchronicity, de 1983. Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung [foto]. Segundo o psiquiatra suiço, é diferente de “coincidência”. Aliás, classificar “sincronicidade” como tal é uma simplificação grosseira. O próprio Jung preferia o termo “coincidência significativa”.

De acordo com a teoria de Jung, a sincronicidade ocorre quando determinados eventos “convergem” por uma relação de significado – e não por mera “casualidade”.


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Andy Summers, Stewart Copeland e Sting eram/são músicos dotados de enorme técnica. Sendo assim, conceberam um faixa visceral, caótica, gravada com uma competência indiscutível.
Na introdução, um riff inconfundível de Summers alinha-se à letal bateria de Stewart e ao marcial baixo de Sting. E, logo a seguir, uma melodia vocal que transparece ira, pura ira.

A letra ilustra o cotidiano de pessoas que vivem no subúrbio, através de um mosaico de imagens sombrias: “Mais uma feia manhã industrial / a fábrica vomita imundice para o céu. / (...) As secretárias fazem beicinho e se enfeitam / como prostitutas baratas numa rua de luzes vermelhas”. E fala de tédio. Humilhação. Falta de perspectivas.

Sting não economizou nadinha na interpretação de “Synchronicity II”. Em vários trechos do clipe – filmado em um cenário retro-futurista –, ele mostra um semblante furioso, com os olhos arregalados.

E muito do fascínio exercido pela arte reside justamente aí: em sua capacidade de “imitar a vida”. Afinal de contas, o coração humano não é habitado apenas pelas “emoções bonitinhas”...


Da série São Bonitas as Canções: ‘Englishman In New York’, de Sting


Em seus quatro minutos e meio de duração, “Englishman In New York” consegue sintetizar toda a musicalidade de Sting [acima] – desde o Police até a sua carreira-solo. Regravada em Symphonicities, a faixa foi lançada originalmente em seu segundo álbum solo de estúdio, ...Nothing Like The Sun, de 1987.

Trata-se de um reggae – uma das “marcas registradas” do Police –, porém, executado com elementos de jazz, gênero do qual o artista inglês aproximou após a dissolução do trio.

No meio da canção, após um trecho de improvisos jazzísticos, surge uma bateria... de rock (!) – ritmo que sempre esteve presente na sonoridade de sua antiga banda e em alguns momentos de sua carreira solo. Pronto: o “resumo da ópera” está aí.

Filmado em um elegante P&B, o vídeo – a exemplo da gravação – conta com a participação do saxofonista Brandford Marsalis.


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Englishman In New York” é dedicada ao escritor britânico Quentin Crisp (1908 – 1999) [à esquerda], que, inclusive, aparece no clipe – sim, eu sei que ele se parecia com uma velhinha...

Crisp tornou-se um ícone do homossexualismo, após o lançamento de sua autobiografia, The Naked Civil Servant (1968), na qual se recusou a manter na obscuridade a sua orientação sexual.

Em 1986, Sting jantou no apartamento do escritor, no bairro novaiorquino do Bovary. E foi justamente após esse encontro que teve a ideia da canção.

Be yourself. No matter what they say


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Curiosidade: em sua (ótima) autobiografia,
Fora do Tom (2003), Sting não escondeu o seu encanto com a cidade que, como Sinatra cantou um dia, “nunca dorme”.

— Minha primeira viagem a Nova York foi o início de um caso de amor permanente com uma cidade que me inebria como nenhuma outra.

Apesar de residir atualmente em uma villa na Toscana, Itália, o músico possui, entre as suas (inúmeras) propriedades, um apartamento em Manhattan.



quarta-feira, setembro 22, 2010

Sting: agora, crooner de orquestra


CD
Symphonicities (Deutsche Grammophon, edição nacional via Universal Music)
2010


Contrariando quaisquer previsões, ex-Police relê suas canções dentro do universo sinfônico

Menos de ano após o seu mais recente trabalho, o invernal If On A Winter's Night..., Sting, mais uma vez, tomou uma decisão artística que certamente o seu público não imaginava. Na companhia da Royal Philharmonic Concert Orquestra, sob regência de Rob Mathes, iniciou – a princípio pelo Velho Continente – uma turnê na qual vertia suas canções para o formato sinfônico, intitulada Symphonicity.

No decorrer da excursão, convidou mais duas orquestras – The London Players e The New York Chamber Consort – e entrou em estúdio para registrar doze faixas, como uma espécie de “polaroide” do espetáculo. Assim surgiu o CD Symphonicities, que chega ao mercado pela gravadora alemã Deutsche Grammophon, com edição nacional via Universal Music. O título do álbum faz alusão a Synchronicity, de 1983, quinto e último trabalho de estúdio do Police.


Verdade seja dita: a maioria das canções de Sting – especialmente em sua carreira solo – parece ter sido feita sob medida para o acompanhamento de uma orquestra. Exemplos: a belíssima “When We Dance” (1984); “The End Of Game” (1999), cuja letra lembra um conto épico; a delicada “The Pirate's Bride” (1996); e “I Burn For You” (1982, gravada ainda no período em que o artista liderava sua antiga banda), todas presentes no álbum. Os arranjos, aliás – embora caprichados –, guardam alguma semelhança em relação aos originais.

Nesse sentido, são apenas quatro as faixas que verdadeiramente surpreendem: “Every Little Thing She Does Is Magic”, a primeira faixa de trabalho, que tornou-se um tema, digamos... primaveril; “She's Too Good To Me”, de seu terceiro álbum solo de estúdio, Ten Summoner's Tales (1993); a punk “Next To You”, do primeiro álbum do Police, com violoncelos from hell que lembram... Bach (!); e a manjada “Roxanne”, que adquiriu um clima um tanto... melancólico.

A ausência de impacto, entretanto, não compromete a qualidade de Symphonicities, que está repleto de bons momentos.

I Hung My Head”, originalmente lançada em Mercury Falling, de 1996, conta a estória – ambientada em tempos antigos e cheia de imagens surreais – de um homem que, atirando a esmo em direção a uma colina, fere de morte um cavaleiro. E acaba condenado à guilhotina. Também foi gravada pelo lendário Johnny Cash em seu último trabalho, American IV: The Man Comes Around, de 2002.

Já a delicada “You Will Be My Ain True Love” é a única faixa que não aparece em nenhum outro álbum de Sting. Foi gravada originalmente em 2003, em um dueto com a cantora de bluegrass Alison Krauss, para a trilha do filme Cold Mountain. Completam o repertório a indignada “We Work The Black Seam” e a sempre eficiente “Englishman In New York”.

Symphonicities é o retrato de um artista orgulhoso de sua obra. E com toda a razão: não resta dúvida de Sting é um dos melhores autores pop ever. E tem lastro suficiente para lançar vários volumes de discos sinfônicos com suas músicas.

Contudo, não seria má ideia se o ex-Police editasse um novo álbum de inéditas – o último foi o bom Sacred Love, de 2003 (!).

quinta-feira, setembro 16, 2010

‘Excesso de liberdade de informar’


Independentemente do seu posicionamento político, caro (a) leitor (a), recomendo a leitura do editorial de hoje do jornal O Globo, o qual – dada a sua enorme relevância no atual contexto político brasileiro – peço licença para reproduzir neste espaço.

O texto traz acusações graves – nominais, inclusive – que, creio, não se tornariam públicas se desprovidas de fundamento.

Em um Estado de Direito, não existe “excesso de liberdade” de imprensa. Existe apenas... liberdade. Não havendo liberdade, o que existe, inequivocamente, é... cerceamento. E, quando a livre expressão da imprensa é controlada, a democracia, como um todo, encontra-se seriamente ameaçada.

Resta a dúvida: depois de décadas sob os grilhões de ditadores militares, a América do Sul estará agora submetida a autocratas... civis?


Um projeto autoritário em marcha [Editorial]


Deputado federal cassado devido à comprovada participação no esquema do mensalão, e qualificado, no processo sobre o escândalo em tramitação no Supremo, como “chefe da organização criminosa” montada para comprar com dinheiro sujo apoio parlamentar ao governo Lula, José Dirceu não perdeu espaço no PT.

Ao contrário, pois certa militância petista demonstra seguir um padrão moral maleável a ponto de ser condescendente com golpes contra o Erário, desde que em nome de “bons” propósitos. As últimas semanas de fatos ocorridos na política comprovam esta ética peculiar do partido.

A palestra feita segunda por Dirceu a petroleiros da Bahia mostra, por sua vez, como o deputado cassado, réu, pontifica em nome do partido, cujo “projeto político”, disse, poderá ser executado com a chegada da companheira em armas Dilma Rousseff ao Planalto.

E é parte do projeto controlar a imprensa independente e profissional, meta da legenda desde a chegada ao Planalto, em 2003. Como disse o líder petista aos petroleiros, há no Brasil um “abuso no poder de informar”(!!). A frase poderia ser de um daqueles censores da Polícia Federal nos anos 70.

Fracassadas as tentativas de intervenção na produção audio-visual por uma agência (Ancinav) e de oficialização da patrulha sobre os jornalistas por meio de um conselho sindical, o “acúmulo de forças”, nas palavras do ex-ministro-chefe da Casa Civil, deverá permitir, agora, a realização do antigo sonho.

É um erro achar que o PT de Dirceu espera Lula esvaziar as gavetas no Planalto, despachar a mudança rumo a São Bernardo, para desfechar o ataque ao direito constitucional à liberdade de imprensa e expressão. Ele já vem sendo preparado, por determinação do próprio Lula, pelo ministro de Comunicação Social, Franklin Martins.

Será deixado pronto para Dilma um projeto que, entre outros pontos, pretende regular as chamadas “participações cruzadas”, com o objetivo de reduzir o tamanho e a diversificação dos grupos de comunicação.

A intenção é a mesma que move o casal Kirchner, na Argentina, ao forçar o grupo Clarín a se desfazer de canais de televisão, sempre em nome do combate à “concentração”.

É falso o argumento do incentivo à competição, pois, hoje em dia, com a internet e a proliferação de canais de distribuição de informações, há incontáveis e crescentes opções à disposição de leitores, telespectadores e ouvintes.

O real objetivo do projeto, de origem chavista, é acabar com a independência das empresas profissionais de jornalismo e entretenimento, pelo corte do seu faturamento, hoje obtido por múltiplas fontes de receitas. Reduzidos em sua escala, os grupos terão de buscar verbas oficiais para se manter, e com isso acabará na prática a liberdade de imprensa.

É tão inconcebível a Dirceu a livre manifestação de opiniões e de veiculação de fatos que o petista aproveitou a doutrinação de petroleiros para criticar o ministro Carlos Ayres Britto, do STF, pelo seu voto contra a censura eleitoral, redigido com base no entendimento do amplo alcance do direito constitucional à liberdade de imprensa.

Entende-se por que a campanha petista volta-se cada vez mais para tentar obter folgada maioria no Congresso.

Se o pior acontecer, com a aprovação de projetos contra a Carta, a última trincheira de defesa da Constituição será o Poder Judiciário.



Disponível também no Blog do Noblat.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Da série ‘Crônicas’: ‘Pesquisa Eleitoral’

Direto ao ponto: sou contra a divulgação de pesquisas eleitorais. Terminantemente contra. Pelo simples fato de que as mesmas prestam, na verdade, um desserviço à democracia, “conduzindo” uma parte significativa da população a praticar a anomalia conhecida como “voto útil”:

— Ah, eu gostaria mesmo é de votar no Fulano de Tal. Só que as pesquisam apontam que ele não tem chance...

O mais desanimador é que esta praga, ao que tudo indica, jamais se extinguirá. Há alguns anos, quando cogitou-se a proibição de divulgação de pesquisas, o presidente de um instituto declarou: “Para mim, não faz diferença – posso divulgar da Argentina, através da internet.” Deplorável.

Sendo assim, diante da proximidade das eleições, fica a dica: esqueçam as pesquisas e votem – para todos os cargos eletivos – de acordo com suas consciências. Mesmo porque, muitas vezes, as pesquisas não retratam a realidade.

Exemplo: nas eleições para a Prefeitura do Rio, em 2008, o candidato do PV, Fernando Gabeira aparecia na terceira colocação das intenções de voto. Contudo, terminada a apuração, Gabeira havia ultrapassado o então segundo colocado – o senador Marcello Crivella – e foi para o segundo turno.

Detalhe: nenhuma pesquisa apontou esta possibilidade.

(Gabeira acabou perdendo a eleição por míseros 50 mil votos. Talvez pelo fato de que o Governador do Estado ter trocado a data de um ponto facultativo de seus funcionários, deixando-os livres para, digamos, viajar – e, consequentemente... não votar. Mas isso é outra história...)

E mais: não esqueçam que um instituto de pesquisa não deixa de ser uma empresa – que, como tal, precisa sobreviver. E será que somente as encomendas dos meios de comunicação – e apenas em períodos eleitorais – são o suficiente para tanto?

Pensem nisso.


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Em tempo: algum de vocês já foi abordado para responder a algum tipo de pesquisa? Eu, pelo menos, em trinta e tantos anos de vida, jamais fui...